PESQUISA PARTICIPANTE E PESQUISA AÇÃO: ALTERNATIVAS DE PESQUISA OU
PESQUISA ALTERNATIVA
Roberto
Jarry Richardson.
Para entender o
significado, características e importância da pesquisa participante devemos nos remetermos a sua evolução, particularmente, no últimos
vinte anos.
America Latina dos sessenta, apresentava-se como um continente rico em processos de
modernização social e programas de desenvolvimento.
O Banco Mundial, a Aliança para o
Progresso, o Corpo de Paz enviavam recursos humanos com o intuito de colaborar
com as políticas de desenvolvimento dos nossos paises.Esses profissionais e
técnicos incorporavam-se as equipes nacionais e juntos
decidiam sobre possíveis estratégias de ação. Foram épocas de muita discussão
sobre participação sóciopolítica e econômica, o conceito de marginalidade
aparecia, constantemente nos documentos, discursos, conferencias e outras.
Procurava -se incorporar os grupos "excluídos" das
esferas de decisão às ações a eles destinadas. Pretendia-se transformar objetos
das ações em sujeitos históricos. Muitos cientistas sociais que participaram
nesses programas de desenvolvimento tomaram consciência das limitações e abusos
dos modos convencionais de perceber, tratar e reconstruir a realidade social.
Emergem, assim, formas alternativas de pesquisa com rótulos variados:
pesquisa-ação, pesquisa participante, pesquisa militante, etc.
Todas
tem em comum a
procura de processos de investigação comprometidos com transformações sociais.
Marcela
Gajardo refere-se a cientistas sociais europeus que assinalam, como próprios
aos processos de pesquisa participante, os seguintes aspectos:
a) São
baseados nas necessidades de grupos social politicamente marginalizados.
Seu objetivo e o de trabalhar com os grupos excluídos, em situações comuns de
trabalho e estudo e trocar informações
para colaborar na mudança das condições de dominação. Procura realizar este
objetivo em colaboração com grupos relativamente homogêneos, do ponto de vista
social e local.
b) O ponto de partida, o objeto e a
meta da pesquisa participante são o processo de aprendizagem dos que fazem
parte da pesquisa. Suposições teóricas não examinadas. Pelo contrario, o trabalho
científico e
entendido como contribuição prática para a transformação social, como contribuição
à democratização. Incentiva-se uma tomada de consciência dos grupos sociais
marginalizados, em relação a sua situação e necessidades, para que estas possam
melhorar mediante a organização e a ação política.
c) Ao invés de se manter
distancia entre o pesquisador e o grupo que vai ser examinado,
tal como se exige nas
ciências sociais tradicionais, propõe-se a interação. Isso significa, para o
pesquisador, trabalhar, talvez viver, no grupo escolhido, a fim de elaborar
perspectivas e experimentar ações que perdurem, inclusive depois de terminado o
projeto.
d) No desenrolar do estudo, aspira-se
a uma comunicação o mais possível horizontal entre todos os participantes. Isso
pressupõe que as metas e o desenvolvimento do projeto não sejam previamente determinados,
mas que se elaborem com a intervenção de todos os participantes e que, no
decorrer da pesquisa, possam ainda ser mudados.
e)Utiliza o dialogo como meio de comunicação mais importante no processo conjunto de estudo
e coleta de informação. Tenta, por isso, desligar-se da linguagem das ciências
sociais, acessível somente aos iniciados. Sustenta que a ciência exerce poder e
que a informação e o conhecimento são suscetíveis de manipulação, com o fim de
legitimar situações de dominação ou criar estados de dependência.
Assim, a pesquisa participante
enfatiza a socialização do saber, tentando romper com o monopólio do conhecimento,
através da participação dos sujeitos na analise e solução de seus problemas.
Portanto, diferença fundamental entre
a pesquisa participante e a pesquisa "tradicional" e o controle sobre
a produção e uso do conhecimento. Na pesquisa "tradicional" o
pesquisador assume a responsabilidade de elaborar o problema, decidir os aspectos
metodológicos, coletar informações, analisar os dados e disseminar os
resultados. Em contrapartida, o enfoque da pesquisa participante aponta para:
a) promoção
da produção coletiva de conhecimentos, rompendo o monopólio do saber e da informação,
permitindo que ambos se transformem em patrimônio dos grupos marginalizados;
b) promoção
da analise coleta na ordenação da informação e no use que dela se possa fazer;
c) promoção
da analise critica, utilizando ainformação ordenada e classificada, a fim de
determinar as raízes e as causas dos problemas e as vias de solução para os
mesmos;
d)
estabelecimento de relações entre problemas individuais e coletivos, funcionais
e estruturais, como parte da busca de soluções conjuntas para os problemas
enfrentados." (Gajardo, p.47)
Em
geral, a pesquisa participante surgiu como uma alternativa de pesquisa orientada
a solucionar problemas imediatos e locais com a participação plena dos autores
sociais.
O
pesquisador passou a ser um "animador" responsável da analise critica
e construção da realidade.
A
Pesquisa Ação:
As origens do conceito pesquisa-ação remontam
à década dos trinta. Kurt Lewin, professor alemão que em 1933 teve que
abandonar a Universidade de Berlim para instalar-se nos
Estados Unidos
da América do Norte, elaborou a pesquisa-ação. Como
dizia Lewin, "Quando falamos de
pesquisa, estamos pensando em pesquisa-ação, isto e, uma ação em nível
realista, sempre acompanhada de uma reflexão autocrítica objetiva e de uma
avaliação dos resultados. Como o objetivo é aprender, não devemos ter medo de
enfrentar as próprias insuficiências. Não queremos ação sem pesquisa, nem
pesquisa sem ação" (Barbier,1985,p.38)
Desde o seu inicio a pesquisa-ação se
orientou para a solução dos problemas surgidos pelo crescimento industrial,
modernização e outros. No caso de Lewin, a preocupação concentrou-se nos
problemas da inserção de fabricas em zonas rurais, cuja mão-de-obra era incapaz
de atingir os altos padrões de produção das regiões industriais do Norte dos EUA.
Mas, o seu propósito não era conscientizar os operários com relação à situação
de vida, senão adaptá-los às condições de trabalho das fábricas.
Os estudos de pesquisa-ação
multiplicaram-se durante e depois da Segunda Guerra Mundial, procurando
alternativas de pesquisa que valorizassem a ação humana. No entanto,é
preciso reconhecer que Kurt Lewin praticamente ignorou um outro tipo de
intervenção cujo objetivo é transformar as estruturas sociais e políticas da
sociedade de classe. Enquanto Lewin procurava influenciar os operários para
fazê-los produzir mais, através do mecanismo de estimulação e de competição, o
outro tipo de intervenção procura as classes populares porque somente elas podem
transformar a situação de exploração produzida pelo capitalismo.
Na América Latina, a pesquisa-ação
adquire força em fins da década dos sessenta, contextualizada por uma forte crítica
à suposta unidade do método entre ciências sociais e
naturais, à visão parcial e unidimensional da
realidade social, à separação entre o científico e o político, e à
marginalização de grupos do desenvolvimento econômico e social
latino-americano.
Existe diferença entre a pesquisa
participante e a pesquisa-ação?
Michel Thiollent (1985) oferece uma caracterização
geral da pesquisa-ação, distinguindo-a da pesquisa participante. A primeira, alem da participação, supõe uma forma de ação planejada de
caráter social, educacional, técnico ou outro, que nem sempre se encontra em propostas de pesquisa participante. Mas,ambas buscam alternativas à pesquisa convencional.
O autor define pesquisa-ação como "...um tipo de pesquisa social com base empírica que e
concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de
um problema coletivo e na qual os pesquisadores e os participantes representativos
da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou
participante". Do ponto de vista cientifico, "a pesquisa-ação e uma
proposta metodológica e técnica que oferece subsídios para organizar a pesquisa
social aplicada sem os excessos da postura convencional ao nível da observação,
processamento de dados, experimentação, etc. Com ela, se introduz uma maior
flexibilidade na concepção e na aplicação dos meios de investigação
concreta" (Thiollent, op. cit. p.24).
Para Michel Thiollent e outros,
características fundamentais da pesquisa-ação são: - a participação das pessoas
implicadas nos problemas pesquisados e uma ação destinada a resolver o problema
em questão. Essa ação seria a que distingue a
dita pesquisa de pesquisa participante. De extrema importância e a ênfase
colocada na participação das pessoas na pesquisa, não como"objetos"
de estudo, mas como elementos ativos do processo de investigação. Logicamente,
essa postura tem conseqüências para a organização e realização da pesquisa e
determina diferenças fundamentais com a pesquisa "tradicional ou "convencional". Não existe a relação
sujeito-objeto de pesquisa: tanto pesquisadores quanto "usuários" são
sujeitos ativos de um processo; a formulação do problema, objetivos, possíveis hipóteses, coleta de dados, etc., são discutidos e
analisados pelo grupo como um todo papel dos
pesquisadores se refere basicamente a preservar o caráter cientifico da
pesquisa(analise sistemática e critica da realidade), portanto, a metodologia
tem um importante papel a desempenhar.
Assim, a
pesquisa-ação e considerada uma estratégia metodológica da pesquisa social na
qual ha uma ampla interação entre pesquisadores e pessoas implicadas na
situação investigada; dessa interação surgem os problemas a serem pesquisados o
objeto da pesquisa e a situação e os problemas encontrados;o
objetivo consiste em resolver ou esclarecer esses problemas; ha um
acompanhamento permanente de toda a atividade dos atores da situação; e, a
pesquisa não se limita apenas a uma ação, mas procura aumentar o conhecimento
de todas as pessoas envolvidas no processo.
Situação
atual e possibilidades
As
características históricas, culturais e sóciopolíticas do contexto determinam
os fatores que facilitam ou obstaculizam as possibilidades reais da pesquisa
alternativa. As experiências conhecidas no Brasil e no resto da América Latina
refletem nos seus resultados e limitações as contradições do momento histórico
no qual se desenvolvem.
Concordando
com Maria Tereza Sirvent (1985), nas sociedades caracterizadas por uma alta
concentração de renda com uma maioria da população em condições de pobreza e
miséria absoluta, esses projetos participativos são facilitados por uma vontade
política de “abertura democrática:” mas, na prática não passam de experiências
isoladas num clima geral de autoritarismo, paternalismo institucional,
arbitrariedades, desemprego e fome.
Além
disso, e fundamentalmente, na medida em que a abertura democrática ou os projetos
participativos, não impliquem em ideologias de modificação das estruturas do
poder social, político e econômico, essas experiências
isoladas serão permitidas pelo esquema de poder vigente. Mas, no momento que
cresçam e desenvolvam
grupos comprometidos com transformações sociais, os projetos passam a ser uma
ameaça contra esse poder. Indubitavelmente, e muito fácil acabar com
experiências isoladas.
Na
década dos oitenta, a América Latina experimentou transformações importantes.
Na maioria dos países ressurgem regimes políticos democráticos, deixando para atrás a época do autoritarismo militar. Além disso,
aprofundou-se um processo de contestação às tendências modernizadoras e
participantes próprias à expansão capitalista, as quais não conseguiram criar
sociedades mais jutas, nem capazes de alcançar um crescimento que diminuísse a
fome e a miséria. Pelo contrario, os modelos de desenvolvimento vigentes,
contribuíram a aumentar a exploração e pobreza dos povos latino-americanos.
Concomitante
a esse questionamento da modernização e do modelo capitalista existente, desenvolveram-se, na América Latina. Experiências que
baseadas num processo de produção e disseminação do conhecimento, procuram
aumentar a capacidade própria dos setores populares na descoberta de modelos
alternativos. O intelectual que participa dessas experiências constata que os
paradigmas e metodologias utilizadas para interpretar a realidade social
mostram-se inadequados para trabalhar os processos vividos. Os movimentos
sociais que se apresentam a si mesmos como portadores de um sentido político
popular ganham força e ocupam
todos os espaços disponíveis.
Na
pesquisa social, surgem novos enfoques metodológicos que insistem na
importância da participação da população, tradicionalmente objeto alienado de
estudo, na produção do conhecimento social. Considera-se, a pesquisa, como um
processo de conhecimento e de transformação da realidade, procuram-se
estratégias de participação da população no planejamento e execução da
investigação. Configuram-se novas tendências e metodologias de pesquisa,
agrupadas sob um mesmo título, pesquisa participante.
Hoje,
ninguém pode duvidar da contribuição dessa pesquisa alternativa para a
construção de uma nova ciência e uma sociedade mais justa.
Problemas
da Pesquisa Participante
A pesquisa participante, conto prática em processo de consolidação,
apresenta diversos problemas. Estes problemas permitem uma variedade de
reflexões que abarcam desde as técnicas e a concepção do método, ate os
aspectos epistemológicos que orientarão a construção de um novo conhecimento.
Entre aquelas reflexões interessa-me destacar as seguintes: - os problemas teóricos da pesquisa
alternativa e a definição da pesquisa participante como estratégia
metodológica.
Problemas
teóricos
Seguindo
as idéias de Justa Espeleta (1986) chama a atenção nos projetos de pesquisa
participante, a linguagem. Uma linguagem que pretende denominar a realidade de
“outro” modo e que procura constituir-se ao mesmo tempo em linguagem crítica.
Este
“outro” modo um modo diferente daquele utilizado pela ciência social dominante.
Trata-se, em geral, de uma linguagem com claras conotações marxistas. Mas,
muitas vezes, o material produzido apresenta serias ambigüidades nos conceitos
utilizados. Por exemplo, “transformação da realidade” pode
ser usado tanto para falar da mudança de hábitos alimentares de um
grupo, como para designar um fenômeno cognitivo referente a sujeitos
individuais; “transformação’ aparece também freqüentemente como sinônimo de
“mudança social”; relações sociais” e usado para falar de interação; “classe
social” tem uma infinidade de acepções; a relação “sujeito-objeto” - categoria
da epistemologia - refere-se habitualmente a uma
interação entre
pessoas. Por outro lado, ‘construção do
conhecimento” pode referir-se tanto i gênese da teoria como a
síntese que o pesquisador chegava fazer de alguns saberes populares;
‘pesquisa”, enfim, pode ser permutada por método ou por técnicas.
Um outro
aspecto a considerar a freqüente transposição de categorias estruturais
(sistema social, classe, reprodução) para a analise de situações particulares,
específicas. Situações que a linguagem funcionalista designa como microsociais
um grupo de mães, um grupo de camponeses, um bairro. A transposição coloca um
problema epistemológico a adequação das categorias ao nível e ao tipo de
processos a estudar. Este problema é importante, tanto para a teoria como para
a metodologia.
É comum
ver trabalhos de pesquisa participante que utilizam o conceito de classes
sociais no sentido positivista, procurando atributos ‘‘materiais’’ para
identificar e situar pessoas na ‘‘escala” social, que
tem pouco a ver com o conceito marxista de classes, onde a questão é mais
complexa, se historia e se situa em termos de relações históricas de dominação.
Além disso. conceitos gramscianos como “bom senso”. “senso comum” ou
‘‘intelectual orgânico” são de uso freqüente nesta produção, individualizando
categorias criadas para a escala do movimento social ou personalizando - pela
via de atributos “objetivos” - categorias cuja definição teórica tem conhecidos
compromissos com significações muito precisas e ausentes deste uso. O
intelectual, por exemplo, que ‘‘devolve” o
conhecimento mais elaborado, recolhido nos setores populares, costuma
chamar-se, por este fato, de “intelectual orgânico”. Evidentemente este não é o
sentido outorgado por Gramsci à categoria intelectual orgânico.
Essas e
outras confusões surgem porque, na prática, a pesquisa participante esta mais
voltada à solução de problemas imediatos, com recursos a nível local.
Lamentavelmente, o pesquisador esquece a teoria e cai num perigoso a-teorismo.
Devemos lembrar que a teoria social esta sempre vinculada a processos
históricos e que não se pode enfrentar a realidade sem uma perspectiva que
permita visualizá-la e defini-la.
Conseqüência
dessa falta de teorização surge, por exemplo, uma séria confusão entre
observação participante e pesquisa participante. Existem muitos especialistas
em pesquisa participante que sugerem que dita pesquisa deveria expressar a
conjunção da observação participante com a participação em pesquisa. Nestes
momentos devemos fazer referência a dois grandes pensadores: Malinowski e Marx.
Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês (1884-1942) foi o elaborador da
observação participante que o levou a uma teoria, o funcionalismo. Karl Marx, foi quem introduziu a dimensão política para o uso da ou a
participação da pesquisa. Não podemos negar que a observação participante e a
única técnica que possibilita a interação entre o pesquisador e os
sujeitos, permitindo uma abordagem pessoal. Mas, quando Malinowski procurava
compreender as sociedades primitivas estava satisfazendo uma necessidade do
Império Britânico para ajustar a sua administração, no
sentido de consolidar a dominação política e econômica. Como afirma
Espeleta. “o saber de Malinowski um saber que se
imbrica numa necessidade
histórica de dominação. Um saber não só útil, senão necessário ao poder’’ Pelo
contrário, como já se sabe, Marx opta pela perspectiva histórica dos
explorados.
A revolução social é a sua meta.
Mudar a sociedade implica construir um novo conhecimento sobre ela e, nesse
processo, vai-se construindo o método,
Em
resumo, Malinowski, procura ordenamentos e Marx o movimento da sociedade. O
primeiro, utiliza uma técnica, a observação
participante, para investigar os ordenamentos das sociedades primitivas. O
segundo, insiste no compromisso histórico da pesquisa
social com a transformação da sociedade capitalista.
Assim, podemos constatar
as diferenças fundamentais entre a pesquisa participante e a observação
participante. Confundir ambas ou tentar conjugá-las e um erro produzido pela
falta de teorização. O pesquisador corre o risco de abrir caminho ao senso
comum como elemento vital da analise científica.
A
Pesquisa Participante como Estratégia Metodológica.
Diversos
autores consideram a pesquisa participante uma estratégia metodológica. Isto
gera diversos problemas que prejudicam o avanço da pesquisa alternativa.
Devemos lembrar que as críticas à pesquisa convencional se dão particularmente
no campo epistemológico do empirismo e positivismo das Ciências Sociais. Logicamente,
os supostos epistemológicos influem nos supostos metodológicos.
Em
geral, o empirismo e o positivismo aplicado às Ciências Sociais refletem uma
visão atomista do homem e da sociedade. Em outras palavras, o elemento mais
importante um sistema social é o individuo, sendo preciso conhecer as suas
opiniões, atitudes, costumes, etc. A totalidade se resume a
soma das individualidades. O exemplo mais claro desse critério e a teoria da
amostragem aplicada às ciências humanas. Em geral, uma amostra deve
ser representativa de uma população ou universo. Como se trabalha com
amostras? Geralmente se aplicam questionários ( 50 ou
mais pessoas) que incluem diversas
perguntas relacionadas ao problema pesquisado. Após coletar e codificar os
dados, analisa-se a informação, somando as
opiniões de cada respondente, considerando-as como opiniões do grupo. Este é um pressuposto epistemológico não aceito
pelos cientistas sociais que trabalham com pesquisa alternativa: o importante é
o conhecimento coletivo, a ação, reação e opinião do grupo ante uma situação
determinada. Portanto, toda amostragem que se baseia em princípios de
individualidade não se adequa à pesquisa alternativa, seja ação ou
participante.
Um outro
pressuposto epistemológico do empirismo e positivismo que se reflete na
pesquisa convencional é o “aparencialismo”(seguindo o
conceito de Jacobo Waiselfiz) pelo qual se limita a capacidade de conhecer à
aparência imediata dos fenômenos. em uma perspectiva
deliberadamente externa e coisificada. Ao limitar a análise ao nível imediato
da realidade e às formas de apresentação dos fenômenos, o
âmbito da problemática a ser pesquisada fica limitada ao dado empírico,
enfatizando-se o império das técnicas de medição, levantamento e analise de
dados. Mas, essa aparência, por ser um modo imediato de manifestações de um
processo histórico, é um ocultamento do real.
Devemos
lembrar que os cientistas sociais da América Latina, como produto de alguns
sucessos e muitos fracassos e repressões aos movimentos populares da década de
60, começaram a questionar politicamente o trabalho do cientista social;
questionam os aspectos epistemológicos, teóricos e metodológicos da pesquisa e
da ciência convencional; e procuram alternativas de compreensão da realidade
social.
Assim, a pesquisa alternativa, incluindo a pesquisa participante, a
pesquisa ação, etc., não se define apenas por uma metodologia
participativa. É uma outra concepção de ciência, com supostos teóricos e
epistemológicos críticos que evidentemente levam a uma pesquisa que procura
contribuir à transformação social.
A
Ciência e a Pesquisa Alternativa
Ao longo
deste trabalho, diversos críticas à ciência convencional
tem sido feitas:- a definição, aos aspectos epistemológicos, aos aspectos
teóricos, à metodologia, técnicas e outros. Logo a seguir, tentar-se-á descrever
alguns aspectos fundamentais da ciência que deve orientar a pesquisa
alternativa.
Princípios
Ontológicos e Epistemológicos
A realidade social é um processo concreto e
historicamente condicionado, no qual a atividade humana produz e reproduz o mundo material, social e cultural. Este mundo pode ser
representado simbolicamente e internalizado pelos seres humanos, mas, possui
uma existência histórica objetiva. A sociedade não é, apenas, um agrupamento de
estruturas sociais e pautas de comportamento produzidas historicamente. A
subjetividade e a autonomia dos seres individuais só pode ser separada do
contexto social e simbólico para fins analíticos. Em conseqüência, a sociedade
não pode ser vista como a soma tio indivíduos socializados; é uma totalidade de relações nas quais
os indivíduos estão inseridos. Além disso, as pessoas e grupos criam seu mundo
e história sob condições produzidas no passado histórico. Em outras palavras,
produzem as condições e estruturas historicamente objetivas, nas quais se
baseiam para criar o mundo do futuro. Disso se depreende que uma determinada
formação social deve ser examinada concretamente, não em termos abstratos. Os
fenômenos devem ser enfocados na sua totalidade, sem dela abstraí-los. Segundo
se sabe, a produção social ocorre sempre nesses contextos totais e esta
configurada por eles. Não se pretende afirmar que em todo trabalho científico,
a formação social global (deva ser analisada, é impossível. Isso significa que as
analises feitas de qualquer fenômeno social, devem incorporar, como elemento
fundamental a inserção desse fenômeno na formação
social total. Em outras palavras, um determinado fenômeno deve ser visto a luz
das principais estruturas o tendências de uma formação social. Nesta visão
totalizante, a formação social o concebida como um conjunto de relações
sociais, historicamente, em desenvolvimento Retomando a forma de análise
totalizante, o pesquisador deve trabalhar a relação existente entre as
tendências fundamentais da formação social e suas formas, historicamente,
espec!ficas. Analisar uma ou outra das possibilidades (o fundamental ou o
específico) é um trabalho incompleto. A análise deve mostrar as formas
específicas de manifestação das tendências fundamentais de uma formação social
para fazer isto, é preciso passar da complexidade das observações a um modelo conceitual da formação, o qual identifica os
componentes essenciais e secundários, situe acontecimentos, e identifique as
principais tendências. Existe, assim, um processo de interação entre a
observação empírica e a formação do modelo conceitual. Isto não e uma interação
unilateral dominada pelo empirismo ou o teoricismo, ambos configuram a
pesquisa.
Na visão
aqui exposta, a produção do conhecimento segue os mesmos princípios. Esta
configurada pelo contexto e pela forma de inserção dos “produtores de
conhecimento” na realidade social. Ditos “produtores” reagem ao mundo real,
mas, não em termos passivos (visão funcionalista). Mediante a suas práticas compartilhadas,
modelam o conhecimento gerado e, podem chegar a transformar a realidade.
Deve-se insistir que as referidas práticas desenvolvem-se em determinados
contextos sociais e estão, parcialmente,
configuradas por esses contextos.
Neste
ponto, cabe destacar o pensamento de Álvaro Vieira Pinto(1985)
com relação à produção do conhecimento. Não se pode partir de “eu penso”,
idéia intemporal metafísica,relativa a um ‘‘eu’’ que não e ninguém, que não
esta situado no tempo e no espaço, mas do fato histórico, social, objetivo de
que “nós pensamos. Este nós, colocado na origem da reflexão gnosiológica
representa o abandono das especulações metafísicas. Com efeito, ao
reconhecer na origem da teoria do conhecimento um “nós’’, não um “eu’’,
parte-se de uma situação objetiva, de um fato concreto e social que fixa e
qualifica a posição de cada individuo num processo histórico. O “nós” implica a
inclusão do individuo num processo objetivo, exterior a ele e a qualquer outro
homem, cuja validade não precisa de confirmação, porque o próprio homem e a
confirmação dele. A existência histórica do individuo, é conhecida e fornece o
ponto de partida para o raciocínio que procura entender o conhecimento, não por
uma evidência interior, mas por uma experiência exterior, social e histórica. O
individuo pode ignorar o processo histórico, mas o processo
histórico não ignora a ele, esse processo que contribui à formação cultural do
homem, pela qual se pode questionar, interpretar e transformar a realidade
social a que pertence. Assim, o conhecimento deve ser construído partindo não
da subjetividade humana, mas da objetividade, da existência concreta do mundo
em transformação permanente. O individuo cria a própria consciência no âmbito
de uma consciência social que o envolve, antecede e condiciona.
Após das
reflexões feitas anteriormente, vale a pena formular alguns princípios que se
identificam com as bases científicas da pesquisa alternativa:-
1º - Para viver e se reproduzir, o homem
deve transformar a realidade, e em primeiro lugar, a realidade material.
2º - Para transformar algo material devemos
conhecê-lo, e para conhecê-lo, devemos tratar com ele, transformá-lo. Isto
significa que só aqueles envolvidos na transformação
material têm a possibilidade de conhecer a realidade. Quem produz a
transformação material (produção)? As classes sociais.
3º - Além da realidade material,
existem concretos reais não-materiais (as relações sociais). As relações
sociais de produção primam sobre as outras relações sociais.
4º - O
processo de produção de conhecimento é um processo de transformação, mental e
ativa, determinado pela classe social.
Os princípios assinalados fundamentam uma
pesquisa alternativa e um método dialético com diversas implicações para a
análise dos fenômenos sociais:-
- A importância de
estudar a produção material como condição para a compreensão de todos os
aspectos da realidade;
- o estudo da totalidade
como condição para compreender todos os aspectos da sociedade(econômico,
político, e social);
- a necessidade de
estudar as classes sociais como unidade básica da sociedade, num contexto de
antagonismo dessas classes;
- a necessidade de
estudar as relações sociais que caracterizam as classes sociais;
- o estudo da estrutura
interna, da lógica, dessas relações sociais;
- a necessidade de
estudar o presente e o passado histórico das relações sociais, procurando os
princípios que permitem a manifestação dessas estruturas (relações sociais).
A aplicação dos princípios
formulados, permitem estabelecer três critérios metodológicos de uma ciência
social alternativa:-
1º -
Considerar o fenômeno social como algo determinado pela totalidade. Os
fenômenos sociais são objetivos, independentes da vontade de indivíduos ou
grupos isolados.
2º -
Considerar o fenômeno social como algo determinado pelas classes sociais e
pelas estruturas.
Segundo já vimos os
fenômenos sociais surgem pela luta de classes e podem subdividir-se em
categorias, as mais importantes são: as
econômicas, ideológicas e políticas. Estes são es principais tipos de dominação
de uma classe sobre as outras. Cada uma destas categorias é o objeto de estudo
de ciências sociais específicas.
3º -
Considerar o fenômeno social como algo determinado historicamente. A
determinação das estruturas é um processo. Portanto o fenômeno deve ser
estudado no presente e no seu passado.
A
utilização destes princípios permite esclarecer muitos problemas da pesquisa
participante. Por exemplo, quem participa? De quê? Sabemos que esse quem” é um sujeito histórico. Não é um indivíduo isolado que
somado a outros indivíduos forma um grupo ou uma sociedade. É um ser social,
“produtor” de conhecimento que compartilha as suas práticas, em determinados
contextos, para transformar a realidade a que pertence.
De que
participa? Participa da produção material em uma realidade total com relações
sociais que caracterizam as classes de uma determinada formação social.
Assim,
‘‘quem participa? De quê? Um sujeito histórico e social que protagoniza
processos sociais, procurando a transformação da realidade.
Atualmente
a pesquisa participante enfoca e tenta solucionar problemas reais que afetam as
condições de vida dos setores populares. Os processos procuram organizar os
indivíduos enfatizando fenômenos locais ou setoriais e com durações variáveis.
Indubitavelmente, essa pesquisa participante tem contribuído a modificar
situações isoladas. No entanto, deve assumir a responsabilidade de uma pesquisa
alternativa para uma nova ciência. Quem faz pesquisa participante deve ter
claramente definidos os seus pressupostos epistemológicos e gnosiológicos de
uma ciência que procura descobrir a essência dos fenômenos e as leis que os
regem, com o fim de aproveitar as propriedades das coisas e dos processos
naturais em benefício do homem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GAJARDO, Marcela. Pesquisa
Participante na America Latina, São Paulo, Brasiliense, 1986
BARBIER,
Rene. Pesquisa-Ação na Instituição Educativa. Rio de Janeiro. Jorge Zahar
Editor. 1985
THIOLLENT,
Michel. Metodologia da Pesquisa-Ação.São Paulo, Cortez, 1985.
SIRVENT, Maria
Teresa. Estrategias participativas em educación de adultos: sus alcances y
limitaciones. La Educación. Ano XXIX Nº 07 Enero - Mayo 1985 p.20-35.
ESPELETA, J. e Rockwell,
E. Pesquisa participante. São Paulo, Cortez Editora, 1986
VIEIRA PINTO, A. Ciência e
Existência.São Paulo. Paz e Terra, 1985.